Voltar sem ter para onde
No mundo real, o passado não está como deveria. Na internet, vem nos assombrar
Essa história de Natal não é sobre não ter para onde voltar. É sobre voltar e perceber que não se volta ao mesmo lugar. É aquilo: não se entra duas vezes no mesmo rio, ainda que seja o mesmo rio, já que suas margens estão assoreando, meteram-lhe uma tubulação de esgoto, usam suas águas para irrigar soja e sua vazão diminui a cada década.
Deve ser uma sensação reconfortante ter para onde voltar e encontrar ali o começo de tudo, nossa origem mais original. Digo, voltar para o primeiríssimo lugar onde vivemos, não o segundo ou terceiro. Encontrar ali a resposta fácil para a pergunta: de onde você é? Estar junto aos seus, aos amigos forjados na infância ou adolescência e cultivados desde então, encontrar a pedra fundamental de sua personalidade e seu caráter.
Eu, por outro lado, ainda volto, mas não encontro mais o que era nem o que sou. Vou aos lugares que frequentei na infância e estão meio fantasmagóricos. O salão no qual entrei pela última vez uns vinte anos atrás, onde dancei ao som de J.Quest e Roupa Nova e pedi a alguém maior de 18 anos para me comprar uma cerveja, agora virou uma academia de equipamentos também meio velhos como eu. Meus colegas de escola vejo por aí em mais um posto de gasolina recém-inaugurado e finjo oportunamente que não reconheci. O gesto é retribuído.
De onde você é? Não sei o que responder. Não me sinto autorizada a dizer da cidade onde moro há menos de dois anos. Tampouco me parece sincero dizer da que morei 12 anos, mas de onde obviamente não sou. Eu sou, mesmo, de um lugar que já não existe mais, onde o pasto está dando lugar a novos loteamentos de casas caixotes cinzas cuja estética pobre tanto incomodou João Gomes, aquele que tem que fazer tudo pela cultura brasileira.
Não se volta ao passado, mas o passado parece que volta como tragédia ou farsa, como alertou o bom velhinho (o real, não o de mentira, personagem do causo que segue). baterista da banda Garotos Podres foi chamado à delegacia para se explicar sobre a música “Papai Noel, velho batuta”, um punk de 1985, quando nem ele nem eu éramos nascidos. Nem naquela época, quando o país ainda vivia sob os escombros autoritários da agonizante ditadura militar, aconteceu algo semelhante. “Papai Noel não existe”, sentenciou à delegada o jovem baterista e passou a ter pesadelos com interrogatórios e sessões de tortura.
Também imbuído do ancestral espírito censor, o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, decidiu há poucos dias proibir o padre Júlio Lancelotti de usar redes sociais e transmitir suas missas ao vivo. O padre é conhecido por seu trabalho com a população de rua e por pregar o amor do Evangelho, o que hoje em dia dá quase no mesmo que ser comunista. Inveja? Perseguição? Ecoando um passado de mistérios e silêncios, a Arquidiocese não se sente pressionada a dar uma justificativa pública.
Felizmente, nessa época do ano, já percebemos que o sentimento de nostalgia tão comum em épocas de crise civilizatória é uma cilada que só fortalece a extrema-direita. O passado se torna um pastiche que ronda nossos algoritmos quando vemos os bolsonaristas se batendo contra nosso símbolo máximo do capitalismo nacional, as Havaianas, por causa da propaganda com Fernanda Torres. Pouco importa que seja uma cortina de fumaça sob a qual se esconde a grana de Sóstenes ou cassação de Eduardo: estamos muito cansadas para arredar a cadeira e decidimos passar a última semana do ano aqui mesmo, rindo na cara dos fachos, como se estivéssemos do lado de uma churrasqueira acesa com uma cerveja gelada na mão. Aliás, é precisamente como estamos, respirando fundo antes de entrar num ano de trevas eleitorais.
Mas essa história de Natal não era sobre tretas da internet, nem sobre política (mentira, que tudo é), era pra ser uma coisa mais offline. Mas consegui? Não, e agora já foi. Me perdi nesses pensamentos enquanto tomo sol à beira da piscina semi-abandonada do Clube dos Bancários, deitada sobre uma espreguiçadeira meio quebrada, preocupadíssima em aproveitar devidamente cada minuto de sol nessa época tão chuvosa do ano, na cidade onde nasci, mas a qual não pertenço.
Boas festas.

