O despejo
Minha curta temporada no meio de um canteiro de obras
Primeiro veio uma ligação do proprietário avisando que já tinha vendido o prédio. Mas poderíamos ficar tranquilos: ainda teríamos cinco meses para deixar o apartamento, com tempo para procurar outro lugar. Mas, apesar do acordo com o dono, a própria casa onde moramos nos últimos dois anos começou a nos expulsar.
Primeiro começaram os barulhos intermináveis das obras nos dois prédios, à esquerda e à direita, com os quais dividíamos as paredes laterais. Furadeiras perfuravam, marretas quebravam, parafusadeiras parafusavam a altos decibéis, em uma marcha irritantemente irregular, até mesmo na terça-feira de Carnaval. Um pesadelo para o home office.
Com o imóvel vendido, o dono já não se importava muito de fazer pequenos reparos e passei todo o verão com o quarto alagando a cada pancada chuva. Nunca torci tanto para começar a seca e, justo dessa vez, ela demorou.
A umidade penetrava nas paredes da casa, que começavam a descascar. Aos poucos, tomadas foram deixando de funcionar, as luzes piscavam, sem certeza de que deveriam permanecer acesas. Até o sinal de internet, antigamente tão estável, começou a ficar ruim. A água fornecida pela distribuidora vazava por lugares imperceptíveis. Um mês a conta veio 600 reais, no mês seguinte, quase 900. Foi a gota d’água.
Finalmente o dono do prédio havia cedido às investidas do homem que comprou os dois prédios ao lado, o da direita e o da esquerda. Em pouco tempo, os três virarão um complexo de quartos para aluguel por temporada. Passei a ver o novo dono por ali o tempo todo, falando ao celular, regendo um grupo de homens em torno da casa. Ouvi mais de uma vez um encarregado gritando com um trabalhador, que devolveu a reação com raiva. Um ambiente bem acolhedor.
Sob nova direção, as obras das laterais começaram a vazar para o redor do prédio, pelo beco atrás, pela loja de extintores que ocupa o térreo e eu me peguei morando no meio de um canteiro de obras. Sacos de entulho passaram a compor a paisagem na porta de entrada. As caçambas de lixo turbinadas por um restaurante que abriu na esquina passaram a estar sempre muito cheias e a rua sempre suja e fedendo a comida azeda.
Poderíamos ficar até julho, mas em meados de maio o apartamento já havia nos despejado por completo. Vem aí mais um lugar para aluguel por temporada na Asa Norte.

