Natação à tarde
Quando nossa vida banal é contemporânea da grande história
Fiquei um pouco decepcionada ao descobrir que a viralizante citação de Kafka A Alemanha declarou guerra à Rússia – Aulas de natação da tarde não é um microconto sobre a banalidade da guerra, ou a indiferença individualista, tampouco uma reflexão irônica sobre o descasamento entre o tempo dos grandes acontecimentos históricos e da pequena rotina na modernidade.
Não. É tão somente uma breve anotação em seu diário, sem maiores pretensões literárias. A única conexão entre os fatos da página é que ambos se passaram em 2 de agosto de 1914 e suscitaram no autor a vontade de anotá-los (sabe-se que Kafka amava nadar). Aliás, este diário era pessoal e só veio a público após sua morte, ao que parece por descumprimento da promessa de um amigo e editor.
Desatentos a esse detalhe, cá estamos nós, leitores apressados de post de internet em 2026, por um lado julgando, por outro nos identificando com o cinismo de Kafka ao colocar lado a lado um fato aterrador e outro banal. Como ele, colocamos nossas banalidades pessoais nos mesmos veículos em que testemunhamos fatos históricos terríveis como uma pandemia, o colapso climático e a ameaça cada vez menos implausível de uma grande guerra mundial. Diferente dele, publicamos conscientemente.
Tenho pensado na vida cotidiana das pessoas durante as guerras passadas. Diferente das nossas, amplamente devassadas, são espaços ainda opacos, onde cabe a imaginação. Elas seguiam indo em festas, escrevendo poesia, falando sobre o tempo? Se apaixonando, limpando a casa? Cada vez que os filhos saíam para a escola, mães davam-lhes um abraço apertado, sabendo que poderia ser o último?
Jovens estudantes de engenharia continuavam se esforçando para passar em cálculo III? Jardineiros continuavam podando? Agricultores plantavam sem saber se dali a um ano haveria colheita? A proximidade do fim do mundo teria sido um bom argumento para convencer um rapaz tímido a se declarar? Um fumante relutante desistiria de tentar largar o vício?
Dia desses, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã e talvez a próxima grande guerra começou. E eu também fui nadar. Nada demais, como também a Kafka talvez não parecesse nada demais aquela anotação íntima. Isso diz menos sobre cinismo e mais sobre a grande impotência (a de Kafka e ainda mais a nossa).
Enquanto nadava, pensei nas mais de 100 meninas assassinadas na escola pela bomba imperialista. Pensei em Cuba cercada e nos escombros de Gaza (não tem um dia que não pense em Gaza desde outubro de 2023). Segui nadando e pensando na trágica impotência dos indignados, enquanto tentava segurar a respiração embaixo d’água para sentir que ainda é possível controlar alguma coisa. Kafka certamente apreciava essa sensação.

