Devolvam o brilho da Lua
O deslumbre com a beleza radiante da lua, o fascínio pelas conquistas humanas, o espanto com a imensidão do espaço: até isso o imperialismo me tirou.
Para começar, a Lua tingida naquela magnífica paleta nem é real. Suas cores foram artificialmente saturadas para ressaltar a presença de minérios. Involuntariamente ou não, funciona como um infográfico no qual a Lua, nossa Lua, se apresenta em seus recursos extraíveis. Além de digitalmente modificada, a imagem não é nova e não foi feita do espaço, pelos astronautas da missão Ártemis II, mas por um fotógrafo ucraniano. Em tempos de excesso de estímulos, nosso gosto não aguenta a palidez cintilante da Lua. A queremos em tons pastéis enquanto nosso único planeta se apresenta mais desbotado, menos azul, mais blue.
O desconforto segue. Enquanto os astronautas fazem história ao tornar a aventura espacial cool again, coisa demais se passa aqui na Terra. Em apenas 10 minutos, 160 mísseis israelenses matam mais de 300 pessoas no Líbano e ferem outras mil. Em uma operação incondicionalmente apoiada por quem? Pelo país dos astronautas. Bebês prematuros morrem nos hospitais cubanos por falta de eletricidade. Quem impede o combustível de chegar a Cuba? O país dos astronautas. Mais de 150 meninas são mortas dentro de uma escola por um míssil Tomahawk. Quem opera esse tipo de míssil? Sim.
Os astronautas dizem: nosso planeta é raro, a vida é uma dádiva, estamos na mesma nave e todas as fronteiras que nos dividem são artificiais (não existe hemisfério ocidental também, eu gostaria de complementar, mas eles não chegariam tão longe, apesar de ter chegado mais longe que qualquer um de nós). Mas o presidente de seu país diz: posso destruir uma civilização inteira se eu quiser. Em seguida, o mundo diz: nada. Reina o absoluto silêncio, assim na Terra como no céu.
Sim, leitora. Estamos no quarto parágrafo e você já percebeu que esse é mais um texto amargurado e com altos níveis de um antiamericanismo meio estereotipado. É mais forte que eu. Se repito essa fórmula é porque o clichê se tornou assustadoramente real. Não há nuance, não há claro-escuro, não há filtros para esconder a perversidade dos homens mais poderosos deste asteroide pequeno que todos chamam de Terra. Aí, a fala emocionante dos astronautas, emitida em tom de esperança e união, não soa sequer como uma crítica, uma contradição, mas como cinismo.
Cansei desse filme. Diante uma crise nuclear, ambiental ou civilizatória, quando o país dos astronautas se sente ameaçado em seu pedestal hegemônico, requenta essa história de corrida espacial. Agora, amplificada pela hiperexposição nas redes. O comandante da missão se barbeia a bordo (por que alguém faria a barba no espaço se não houvesse transmissão no Youtube?), a mulher astronauta posa tal como uma diva de olhar perdido na imensidão sideral e há também o primeiro homem negro no espaço. Mas tudo soa forçado, meio irônico, distópico. O deslumbre com a beleza radiante da lua, o fascínio pelas conquistas humanas, o espanto com a imensidão do espaço: até isso o imperialismo me tirou.
Na primeira vez, fincaram uma bandeira dos EUA na superfície da nossa Lua. Uma bandeira singela, de menos de 6 dólares, comprada em loja de departamento, mas que gerou uma cena histórica, reproduzida por décadas, um “grande passo para a humanidade”. A arrogância geopolítica daquele gesto quase não foi notada, pois, maravilhados, sentimos que aquilo dizia respeito a todos nós, coletivamente. A Lua pertencia, enfim, à humanidade.
Acuados em Terra, humilhados pelo Irã (como outrora pelo Vietnã), os EUA se voltam novamente para a Lua. Querem mostrar ao mundo que são os únicos autorizados a dar grandes passos em nome dessa tal humanidade, que se torna cada vez mais excludente. A China quer repetir o feito até 2030, mas os únicos representantes legítimos da raça humana não podem permitir que os subalternos deem pequenos passos, muito menos façam grandes marchas. A face oculta, finalmente, está à mostra.
Especula-se o que pode ter acontecido com as seis bandeiras dos EUA deixadas na Lua nas missões das décadas de 60 e 70. Se ainda estão lá, é quase certo que tenham desbotado, tornando-se bandeiras brancas em farrapos, como aquelas agitadas por mãos trêmulas em meio aos escombros das nossas guerras terrenas. Além das bandeiras, há outros objetos como duas bolas de golfe, uma bíblia, um retrato de família, sacos de excrementos humanos.
Mas a Lua (ainda) é minha, é sua, é de ninguém. Ainda podemos admirá-la e escrever canções, poemas e livros sobre ela. Ela é das princesas e com mais certeza será dos garis, como diz a canção. Que seja das crianças que sabem que sua cor verdadeira é flicts. Que seja das crianças de Gaza e não de seus algozes.
Um dia a Terra, como a Lua, também não será de nenhum país.


Excelente texto!!! Adorei.